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2025: o ano das pessoas

Pessoas. 2025 foi o ano das pessoas. Conheci gente incrível ao longo dos últimos meses. Pessoas com histórias e percursos diferentes. Com motivações e sonhos distintos. Pessoas com vontade e iniciativa para fazer a diferença.

Eu, que encontro nas pessoas a minha maior inspiração, reconheço que 2025 foi pródigo em dar-me gente boa (e boa gente).

Sigo para 2026 com vontade, sonhos por concretizar e projetos “na manga”. No entanto, enquanto cidadã, mulher e mãe (entre tantos outros papéis que desempenho), não consigo deixar de me preocupar com o ano que se avizinha.

A inteligência artificial influencia a forma como nos relacionamos, vivemos e trabalhamos. Já não sabemos o que é real, nem onde reside o verdadeiro talento. Aquilo que devia ser apenas uma ferramenta tornou-se, para muitos, numa máscara. Infelizmente, sinto que não estamos minimamente preparados para o impacto, que já se sente, no mundo do trabalho.

A desinformação e a manipulação da verdade, sustentadas por discursos de ódio, revelam a fragilidade de uma educação que tem falhado na missão de promover o pensamento crítico, capaz de nos levar a questionar, compreender e agir.

Ao mesmo tempo, a democracia e as instituições são cada vez mais frágeis. Ouvem-se das tribunas vozes sem credenciais e sem provas dadas. Surgem cada vez mais problemas e não há quem consiga resolvê-los.

Assistimos também ao aumento das desigualdades sociais e económicas, num mundo que insiste em dividir-se entre direita e esquerda, alimentando o extremismo e eliminando a empatia. A falta de escuta e a incapacidade de diálogo vão erguendo, diariamente, muros cada vez mais altos.

E, num tempo de pressão constante para “estar sempre bem”, cresce a solidão e enfraquece a saúde mental. Soma-se a isto, o desrespeito pelas mulheres e crianças, outrora envergonhado, e perante o qual continuamos, como sociedade, a falhar na resposta.

Apesar de tudo, ainda acredito nas pessoas. Porque é nelas que continuo a encontrar a razão (e a esperança) para acreditar que podemos todos fazer melhor. Com mais respeito. Com mais cuidado. Com mais educação. 

Talvez, por tudo isto, 2026 tenha também de ser, mais do que nunca, o ano das pessoas.

Dias do ano

Cem dias de alegria.

De desassombro e espanto.

Pintados com todas as cores do desejo

e com instantes do tamanho da eternidade.

Desenhados com mão subtil,

sustentados por intenso sentir.

Ganharam pele e pulsação própria.

Cheiro, textura e memória.

 

Cem dias de medo.

Erguidos pela própria insegurança.

Cimentados com derrotas,

desalento e cansaço madraço.

Tremeram quando faltou o chão.

Transformaram a memória em abrigo.

Encolheram-se no fundo do peito.

De lá tiveram receio de sair.

 

Cem dias de calmaria.

De azul feito céu.

De aroma primaveril e pés descalços no quintal.

Construídos com paciência.

Ao som das estações.

Sem pressa, sem atropelos.

A reparar defeitos.

A ajustar medidas e a calibrar o viver.

 

Sessenta e cinco dias de sonhos.

À procura de andaimes para construir novos dias.

A desenhar projetos que hão de vir.

A pintar ideias em paredes brancas

e a construir uma casa com janelas abertas para o futuro.

Habitável, humana e perfeitamente imperfeita. 

Com um relógio que bate ao ritmo do coração.

E onde eu possa sempre encontrar-me. 

Prenda de Natal

Dou-te pouco.

Quase nada.

Sem que tu o peças.

Sem que tu o meças.

 

Dou-te o tempo que guardo.

Para os instantes que detêm a pressa.

Para os segundos que marcam a vida.

Para os momentos que serão para sempre nossos.

 

Quando a noite te pesar,

tirarei as estrelas do bolso.

Sentar-nos-emos lado a lado,

espantados com o milagre de existir. 

 

Ficarei ali, em silêncio.

Porque as palavras podem ferir.

E, quando o mundo te doer,

dar-te-ei tudo o que sou e tenho.

 

Na imensidão de um sonho,

que cabe no peito de quem ama, 

desenhamos no céu os desejos

e rezamos para que o amanhã se torne real.

Carta ao desânimo

Querido desânimo,

 

És feito de tempestade. És feroz. E bravo. Devastas os sonhos. Arrasas a esperança. E teimas em aparecer. Será que bates a todas as portas?

Há quem tenha portões de ferro: parece que nunca são abalados. Há quem tenha portas fortes e coloridas cuja tinta não se desvanece: certamente nunca são arrombadas. E até há quem viva em enormes torres, com portas bem altas: como é que alguém lá pode entrar? Mas eu tenho uma porta simples. Feita de madeira que incha com o calor, humedece com a chuva e cujas dobradiças teimam em aborrecer.

Pinto a porta de amarelo quando por ela passo a sorrir. O rosa é usado se recebo um beijo ao sair. E o azul é a cor escolhida quando por ela atravessa a minha cabeça repleta de ideias.

Tu, querido desânimo, apareces quando não te convido. Tocas à campainha mas, como te ignoro, tentas derrubar a minha porta. Sopras. Abanas. Empurras. Pintas a porta de preto. Riscas e rabiscas. E, por vezes, a porta cede. Nesses dias, invade-me o temporal. Vai-se a força. Vai-se a determinação. E chegam os suspiros que transpiram dúvidas.

Foi assim no primeiro dia desta semana. Foi assim também no segundo. Mas hoje está na hora de partires. Não segredarás impropérios. Não gritarás aos meus ouvidos. E voltarás a colocar a minha porta no devido lugar. Vou roubar a tua lata de tinta preta e escondê-la. O que farás tu sem o negrume com que pintas?

Depois de saíres, vou dar à minha porta a cor laranja. Acho que também vou usar o verde aqui e acolá. E, depois de ter a porta devidamente colorida e enfeitada, vou abri-la e deixar a luz entrar. Vou preparar uma cesta de doces para alimentar os sonhos. E também um copo de vinho para os desejos. Vou dançar descalça com a alegria e cantar até conseguir. Vou encher-me de coragem e recolher todas as ambições que conseguiste espalhar.

Adeus, desânimo: nesta porta colorida que é o meu coração, tu já não tens lugar.

Fio

No fio.

Do ser. 

Do querer.

 

No fio rosa.

Da flor.

Do papel. 

 

No fio rosa sedoso.

Que me habita.

Que me enlaça.

 

No fio rosa sedoso e firme.

Como a terra que me sustenta.

Como o céu que eu procuro.

 

A vida dos outros

Seguimos curiosos,

questionando a vida que não é nossa.

Críticos. Censuradores. Tantas vezes cruéis.

 

Perplexos ficamos quando,

nas entrelinhas da história dos outros,

nos reconhecemos.

 

Ali, entre o pecado escondido.

No eco da dor que nos habita.

Ou na dúvida que nos assombra. 

 

Porque é nos outros que nos fazemos.

Nos construímos.

Nos oferecemos.

 

Quando a imperfeição que partilhamos se torna ponte,

o medo torna-se humano

e a solidão cede ao espanto. 

 

Porque é nos outros que somos.

Feitos de sangue, assombro e memória,

capazes de deixar a culpa respirar.

 

E de, com ela,

respirar também. 

Brinde ao Outono

Este sabor a Outono,

gravado na chuva que começa a cair,

no aconchego da lã

e nas açúcaradas pêras do quintal.

 

Este Outono que é meu,

sempre eterno preferido.

Perdido entre dois tempos do relógio,

vive sem pressa e sem o excesso do Verão.

 

Veste-se de cobre e de ouro,

dança com o copo de vinho na mão.

Ele celebra a luz de mel 

e balança ao som do jazz.

Bonecos de vidro

Somos todos feitos de cacos.

De silêncios que se transformaram em melancolia.

De palavras que se perderam entre os lábios.

De abraços que ficaram presos nos medos.

 

Sustentamo-nos com cola e boa-vontade,

com remendos de afeto e fita-adesiva de esperança.

A cada passo, o medo de estalar outra vez.

A cada segundo, o receio de revelar a vulnerabilidade.

 

Caminhamos por aí, a fingir que somos inteiros.

Polimos os cantos para não ferir,

insistimos em puxar o brilho à tosca loiça

e em manter a cabeça, cheia de tempestades, bem erguida.

 

Expressamos alegria antes da sinceridade,

engolimos a tristeza com café e rotina,

vestimos o orgulho como armadura

e chamamos coragem ao simples ato de sobreviver.

 

Mas, quando a noite cai, permitimo-nos sentir:

cansados, humanos, despidos,

com vidros nas mãos e no peito,

a rezar para que a cola nunca nos falhe.

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