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Cuidar sem ser cuidada

Segue rápida de pano na mão.

Cuida dele. E dele. E dele. E dele. Nunca de si.

Cuida de quem está doente.

E também de quem sempre foi cuidado e nunca foi capaz de atender.

Os ponteiros rodam, os dias passam.

Ela responde a todas as necessidades. 

Vive de acordo com as emergências dos outros.

Saúde. Higiene. Roupa. Loiça. Comida. 

Ela murcha e enfraquece. 

Não troca a roupa preta e as rugas vaidosas exibem-se.

O olhar não brilha e o sorriso esmorece.

Ela grita calada.

Sem nunca deixar de zelar.

Ninguém a ouve. Ninguém a acode. 

Chora envergonhada e em silêncio.

Surgem sugestões e brotam opiniões.

Ela desespera e enlouquece. 

Não há mãos que a ajudem a carregar o peso. 

Dos corpos que ela não se preparou para cuidar.

Das palavras que ela não merece ouvir.

Das dores que ela não merece carregar.

Da vida que ela sonhou e que teve de abandonar.

 

Há alguém que - realmente - a veja e a escute?

Poesia é casa

Poesia é romance. 

Alegria que transborda.

Dor que não cala.

Palavra riscada.

Papel amassado.

Janela aberta.

Rua agitada.

Horizonte sem fim.

 

Poesia sou eu.

Tu. Os outros.

Letras que não cabem no peito.

Paixão que o beijo não mata.

Encontro sublime.

Direção. 

Caminho.

E casa. 

Adeus Martinho! Olá Primavera!

Vai. Adeus. Não te demores.

Leva a chuva. A borrasca. E a tristeza.

Afasta a preocupação. O incerto. E a destruição.

Afugenta o medo das crianças que acordaram com o teu bufar.

E deixa-te morrer por aí - onde não possas magoar. 

Quero largar o desânimo. 

Rasgar o desalento.

Esquecer-me de ti.

 

Vai. Adeus. Mas deixa a porta aberta.

Para que a cor e a alegria saibam onde devem entrar.

E com elas, a Primavera.

As asas das andorinhas.

As pétalas das flores.

Quero ver renascer a inspiração.

A alegria de viver.

E a satisfação de escrever o mundo com infinitas tonalidades.

Sopro na alma

Perco-me nessa imensidão que é o sentir.

Na liberdade de observar.

Na magia de escutar.

É no mundo que eu me encontro.

Depois de rodar e rodopiar.

Cair, desabar e desmoronar.

Galgar, alcançar e festejar. 

 

São os outros que me dão sinal de vida.

Através da ponte entre mim e o mundo.

Entre o mundo dos outros e o meu.

Nesse sentir que aquece.

Nesse sentir que assombra.

Que acalma. Que agita.

Que enlouquece. Que surpreende.

 

Tenho sede do mundo.

Tenho fome dos outros.

Da beleza. Da fealdade.

Do que é intenso. Do que é ligeiro.

Do que faz agitar a pele.

Paixão avassaladora.

Ou sopro na alma.

Envergonhada

Perguntam: és sempre tu?

Aquela que sente e escreve sobre liberdade.

Sobre amor. Sobre raiva.

 

Perguntam: como és capaz?

De desbravar a folha em branco.

Pintá-la de rosa. Riscá-la de preto.

 

Perguntam: não tens vergonha?

De escrever atrevidamente sobre tudo.

De inquietares os outros.

 

Respondo: sou sempre eu - em todas as linhas.

Tão capaz e tão incapaz.

Envergonhada por só me encontrar verdadeiramente quando escrevo.

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