Antes perdida do que presa
Acordei com todas as certezas.
Certa do isto. Farta do aquilo.
Guardo as minhas convicções todas.
Não as dou, nem as partilho com ninguém.
Não abro mão delas, mesmo que magoem.
Eu não duvido. Não hesito. Não vacilo.
Eu continuo certa, mesmo que me pese no peito.
Eu não repenso. Não negoceio. Não altero.
Eu continuo firme, mesmo que o mundo pare de girar.
Eu não acolho. Não calo. Não escuto.
Que seria de mim se tentasse ver com os olhos do outros?
Que seria de mim se tentasse encontrar um caminho que nos servisse aos dois?
Que seria de mim se tivesse de vestir outra pele?
Que seria de mim se eu permitisse que se instalasse a questão?
Que seria de mim se decidisse prestar atenção?
Eu sei que estou certa.
Porque é melhor estar presa, do que perdida.
Presa às certezas. Presa às crenças.
Presa à força de um eu inabalável.
Presa à garantia da validade da minha visão.
Viver perdida não é para mim.
Viver na liberdade vazia das dúvidas.
Viver no ar leve de incertezas alheias.
Viver no livre pensamento de quem teima em mudar.
Viver a flutuar entre ideias que não plantaram em mim.
Continuarei certa. Sempre certa.
E presa. Sempre presa.