Somos todos feitos de cacos.
De silêncios que se transformaram em melancolia.
De palavras que se perderam entre os lábios.
De abraços que ficaram presos nos medos.
Sustentamo-nos com cola e boa-vontade,
com remendos de afeto e fita-adesiva de esperança.
A cada passo, o medo de estalar outra vez.
A cada segundo, o receio de revelar a vulnerabilidade.
Caminhamos por aí, a fingir que somos inteiros.
Polimos os cantos para não ferir,
insistimos em puxar o brilho à tosca loiça
e em manter a cabeça, cheia de tempestades, bem erguida.
Expressamos alegria antes da sinceridade,
engolimos a tristeza com café e rotina,
vestimos o orgulho como armadura
e chamamos coragem ao simples ato de sobreviver.
Mas, quando a noite cai, permitimo-nos sentir:
cansados, humanos, despidos,
com vidros nas mãos e no peito,
a rezar para que a cola nunca nos falhe.