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Linha de fogo

Como pode o negro feio nascer do verde?

O aroma de uma flor transformar-se em acre?

E a terra brava, em carvão?

 

Abre-se a janela do inferno. As serras começam a arder.

Resta a esperança, embalada nas mãos de quem reage.

E as raízes que, em tempos difíceis, insistem em resistir.

 

Abandonadas, as serras teimam em manter-se de pé.

Mantendo a dignidade que não cabe nos sapatos de quem nunca as pisou.

Esquecidas. Negligenciadas. Mas nunca vergadas. 

Antes perdida do que presa

Acordei com todas as certezas.

Certa do isto. Farta do aquilo.

Guardo as minhas convicções todas.

Não as dou, nem as partilho com ninguém.

Não abro mão delas, mesmo que magoem.

 

Eu não duvido. Não hesito. Não vacilo.

Eu continuo certa, mesmo que me pese no peito.

Eu não repenso. Não negoceio. Não altero.

Eu continuo firme, mesmo que o mundo pare de girar.

Eu não acolho. Não calo. Não escuto. 

 

Que seria de mim se tentasse ver com os olhos do outros?

Que seria de mim se tentasse encontrar um caminho que nos servisse aos dois?

Que seria de mim se tivesse de vestir outra pele?

Que seria de mim se eu permitisse que se instalasse a questão?

Que seria de mim se decidisse prestar atenção?

 

Eu sei que estou certa.

Porque é melhor estar presa, do que perdida.

Presa às certezas. Presa às crenças.

Presa à força de um eu inabalável.

Presa à garantia da validade da minha visão.

 

Viver perdida não é para mim.

Viver na liberdade vazia das dúvidas.

Viver no ar leve de incertezas alheias.

Viver no livre pensamento de quem teima em mudar.

Viver a flutuar entre ideias que não plantaram em mim.

 

Continuarei certa. Sempre certa.

E presa. Sempre presa.

Essa gente

Gosto de gente desalinhada.

Que teima em desenhar as suas próprias rotas.

Que dança pela vida.

Que canta em dias de chuva.

E que se emociona com gestos simples. 

 

Gosto de gente que surpreende.

Que, por parecer nada ser, tudo é.

Pelo que guarda. Pelo que dá.

Pelo que sustenta no peito.

Pelo que faz em silêncio.

 

Gosto de gente com voz.

Com alma. Com mente irrequieta.

Gente que é gente.

Que faz da sinceridade, a coluna vertebral.

E da valentia, o compasso do coração.

 

Gosto de gente de sorriso fácil.

De lágrima honesta. De olhos que falam.

Gente que grita. Que sorri. Que chora.

Que erra. Que beija. Que abraça. Que perdoa.

Que sonha. Que faz. Que ergue.

 

Gosto de gente cujos pedestais são construídos com o respeito dos outros.

De quem vive mais perto do céu, por fazer a diferença na terra.

De quem planta esperança. De quem veste respeito.

Gente que é abrigo. Que é consolo.

Gente humana, que se atreve a ser inteira. 

No colo das Cesaredas

Fui até ao Reguengo Grande sem saber o que esperar.

Entre o chão cinzento e as curvas da estrada, ali no meio o encontrei.

Descobri que verde é a sua cor. Tradição, o seu nome.

Sabe a maçã reguengueira e à carne assada em forno de lenha.

As Cesaredas dão o colo, e nele se aninha o Vale Cornaga.

Tem a forma de mulheres e homens que sabem sorrir. 

A água marca o ritmo. As pedras desenham o espaço. As flores dançam o vira.

E o tempo é guiado pelo sol, que anseia pelas festas de maio.

 

Perdidas entre o passado e o futuro da terra, ali as encontrei.

Com sonhos nas mãos e vontade de fazer.

Com cabelos rebeldes e arte na alma.

Com raízes para além deste mar. 

Com palavras para distribuir e emoções para plantar.  

Encontraram problemas. Descobriram soluções.

Num Reguengo que é hoje maior do que era.

E que cabe nos sonhos de todas elas.

Desinspiração

Se estou triste, não sei da inspiração.

Se estou só, não sei da inspiração.

 

Conseguirei pintar a dor com palavras?

O desalento com verbos. A tristeza com frases.

 

Se assim estou, batem os fantasmas à porta.

E porque decido não abrir a porta, eles espreitam nas janelas.

 

Brincam com a tristura. Zombam das decisões.

Criticam a fé. Empurram a alegria.

 

Pego na alma e começo a escrever.

Para orientar as ideias. Para alinhar o coração.

 

Tomo desse medicamento chamado escrever.

Para espantar a desesperança. E dizer adeus aos ladrões de sonhos.

Capazes de Abril

Filhas da repressão, netas do obscurantismo.

Num Portugal vergado, o que poderiam sonhar?

Donas de um nome e de um corpo emprestado.

Num Portugal amordaçado, poderiam um dia gritar?

 

Foi o vento de Abril. Trazido pelo medo e pela revolta.

Foram os cravos. Pintados de vermelho e de fé.

Fizeram delas mais do que eram.

Tornaram-nas mais do que podiam ousar ser.

 

Ser inteiras. Ser iguais.

Capazes de ir, sem autorização.

Capazes de reagir, com obstinação.

Capazes de desobedecer, com satisfação.

 

Querem agora relegá-las.

Empobrecer a sua voz. Encolher os seus sonhos.

Quebrá-las dentro de quatro paredes.

Subjugá-las ao medo e à insegurança.

 

Mas elas não cabem no local de onde vieram.

Partem muros. Rasgam os céus. 

Porque não se prendem andorinhas. 

E não se acorrentam tempestades. 

Todos, todos, todos

Agora, que precisamos de todos.

Todos, todos, todos.

Partiste, de pés descalços.

E de coração desassossegado.

Por um mundo onde se erguem muros.

Onde se fecham os olhos. Onde se cerram os punhos.

 

Tu, que deixaste os sapatos vermelhos no lado de fora.

Que te atreveste a entrar.

Que abriste as portas da Igreja e acolheste.

Tu, que na tua mesa ousaste colocar lugar para tantos. 

Alimentaste o migrante cansado.

E saciaste a sede de mulheres e homens que tinham sido relegados.

 

Tu, que abalaste as tradições.

E deixaste que o teu coração se enchesse de mundo.

De credos, etnias, línguas e cores.

Tu, que celebraste a diferença com um sorriso.

Foste certeza para quem nunca foi visto.

E consolo para quem nunca teve colo.

 

Tu, que te sentaste num trono sem vaidade.

Onde serviste. Acompanhaste. Ouviste. 

Onde rezaste por terras sem balas e bombas.

Tu, que foste simplicidade, ternura e coragem. 

Foste pão. Foste chão. 

E foste exemplo. 

 

Agora, que precisamos de todos.

Todos, todos, todos.

Agora, que precisamos tanto de ti. 

Partiste para junto do Pai.

Deixaste-nos mais sós.

E eu rezo para que, no céu, tu possas interceder.

 

Francisco, cuida de nós. 

Roda

Entrei na roda. Fui dançar.

E levei os pés descalços.

 

Não carreguei expetativas no bolso.

Simplesmente ofereci um corpo livre.

 

Deixei que alguém pousasse a sua mão na minha.

E logo dei e recebi. Fui céu e fui terra. 

 

Nas cem voltas da roda, descobri que as mãos são equilíbrio.

E que os pés são expressão.

 

Foi num círculo que dancei.

E fiz memória do chão.

 

Ergui templos no centro do peito.

Plantei alegria. Semeei ao som da música.

 

Girei presa por uma linha. 

Pelas mãos quentes que me levaram. 

 

O corpo ouviu o tambor e o som da água. 

Fazendo de todas, o centro de tudo. 

 

Entrei na roda. E ali fiquei.

A saborear o movimento que nasceu no meu coração.

Escreve quem não tem medo

Escreve quem não tem medo.

De fazer do texto, porta aberta para o coração.

De expor fragilidades, crenças e anseios.

Escreve quem age por amor. E por coragem.

Porque não consegue conter a palavra dentro de si. 

Porque não consegue viver sem a riqueza do livre pensamento.

Escreve quem se inebria com a textura do papel e a essência do carvão.

Quem imprime o medo no papel. E quem traça os sonhos com tinta colorida.

Cuidar sem ser cuidada

Segue rápida de pano na mão.

Cuida dele. E dele. E dele. E dele. Nunca de si.

Cuida de quem está doente.

E também de quem sempre foi cuidado e nunca foi capaz de atender.

Os ponteiros rodam, os dias passam.

Ela responde a todas as necessidades. 

Vive de acordo com as emergências dos outros.

Saúde. Higiene. Roupa. Loiça. Comida. 

Ela murcha e enfraquece. 

Não troca a roupa preta e as rugas vaidosas exibem-se.

O olhar não brilha e o sorriso esmorece.

Ela grita calada.

Sem nunca deixar de zelar.

Ninguém a ouve. Ninguém a acode. 

Chora envergonhada e em silêncio.

Surgem sugestões e brotam opiniões.

Ela desespera e enlouquece. 

Não há mãos que a ajudem a carregar o peso. 

Dos corpos que ela não se preparou para cuidar.

Das palavras que ela não merece ouvir.

Das dores que ela não merece carregar.

Da vida que ela sonhou e que teve de abandonar.

 

Há alguém que - realmente - a veja e a escute?

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