Dias do ano
Cem dias de alegria.
De desassombro e espanto.
Pintados com todas as cores do desejo
e com instantes do tamanho da eternidade.
Desenhados com mão subtil,
sustentados por intenso sentir.
Ganharam pele e pulsação própria.
Cheiro, textura e memória.
Cem dias de medo.
Erguidos pela própria insegurança.
Cimentados com derrotas,
desalento e cansaço madraço.
Tremeram quando faltou o chão.
Transformaram a memória em abrigo.
Encolheram-se no fundo do peito.
De lá tiveram receio de sair.
Cem dias de calmaria.
De azul feito céu.
De aroma primaveril e pés descalços no quintal.
Construídos com paciência.
Ao som das estações.
Sem pressa, sem atropelos.
A reparar defeitos.
A ajustar medidas e a calibrar o viver.
Sessenta e cinco dias de sonhos.
À procura de andaimes para construir novos dias.
A desenhar projetos que hão de vir.
A pintar ideias em paredes brancas
e a construir uma casa com janelas abertas para o futuro.
Habitável, humana e perfeitamente imperfeita.
Com um relógio que bate ao ritmo do coração.
E onde eu possa sempre encontrar-me.