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Carta ao desânimo

Querido desânimo,

 

És feito de tempestade. És feroz. E bravo. Devastas os sonhos. Arrasas a esperança. E teimas em aparecer. Será que bates a todas as portas?

Há quem tenha portões de ferro: parece que nunca são abalados. Há quem tenha portas fortes e coloridas cuja tinta não se desvanece: certamente nunca são arrombadas. E até há quem viva em enormes torres, com portas bem altas: como é que alguém lá pode entrar? Mas eu tenho uma porta simples. Feita de madeira que incha com o calor, humedece com a chuva e cujas dobradiças teimam em aborrecer.

Pinto a porta de amarelo quando por ela passo a sorrir. O rosa é usado se recebo um beijo ao sair. E o azul é a cor escolhida quando por ela atravessa a minha cabeça repleta de ideias.

Tu, querido desânimo, apareces quando não te convido. Tocas à campainha mas, como te ignoro, tentas derrubar a minha porta. Sopras. Abanas. Empurras. Pintas a porta de preto. Riscas e rabiscas. E, por vezes, a porta cede. Nesses dias, invade-me o temporal. Vai-se a força. Vai-se a determinação. E chegam os suspiros que transpiram dúvidas.

Foi assim no primeiro dia desta semana. Foi assim também no segundo. Mas hoje está na hora de partires. Não segredarás impropérios. Não gritarás aos meus ouvidos. E voltarás a colocar a minha porta no devido lugar. Vou roubar a tua lata de tinta preta e escondê-la. O que farás tu sem o negrume com que pintas?

Depois de saíres, vou dar à minha porta a cor laranja. Acho que também vou usar o verde aqui e acolá. E, depois de ter a porta devidamente colorida e enfeitada, vou abri-la e deixar a luz entrar. Vou preparar uma cesta de doces para alimentar os sonhos. E também um copo de vinho para os desejos. Vou dançar descalça com a alegria e cantar até conseguir. Vou encher-me de coragem e recolher todas as ambições que conseguiste espalhar.

Adeus, desânimo: nesta porta colorida que é o meu coração, tu já não tens lugar.

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